Ele veio ser servido? Ou para servir?

15 de setembro de 2014

Ele veio ser servido? Ou para servir?



     “Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou. Se sabeis essas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes”; (Jo 13.12-17). 

    A liderança exercida por Jesus durante o Seu ministério foi, e é algo incontestável. De tempos em tempos, os líderes começam apenas a exercer uma função que lhes foi conferida. Eles fascinam-se com os símbolos de poder e distanciam-se de um exemplo prático de liderança que serve as pessoas. Um dos significados mais fortes que Jesus deu para a liderança, não foi simplesmente realizar coisas, mas formar pessoas. O apego ao poder da função faz com que os líderes queiram realizar cada vez mais atividades e se preocupem cada vez menos com o desenvolvimento de outros líderes. Poder, delegação e desenvolvimento de líderes são três coisas conexas na vida de Jesus. O que Jesus mostrou através do seu próprio exemplo, é que o maior legado que um líder pode deixar para o futuro, é a formação de outros líderes através da Sua própria vida. 

Quando se observa a vida de Jesus, entende-se a forma como Ele conseguiu conjugar dois termos aparentemente opostos: SERVIR e LIDERARNos dias de Jesus as pessoas não se alimentavam sentadas em cadeiras. Nas casas de classe média, elas ficavam deitadas de lado, geralmente sobre tapetes e almofadas de apoio. Era muito comum retirar as sandálias ou outros apetrechos que protegiam os pés. A cultura da época era muito comum lavar mãos, braços e pés. A regra social estabelecia que era serviço de empregados ou escravos lavarem os pés de outras pessoas. Este foi o motivo de Pedro ter se assustado com a possibilidade de Jesus lavar-lhe os pés. A regra era acontecer o oposto: Jesus deveria ter seus pés lavados. Mas, Jesus quis ensinar algo muito importante. Liderar requer motivação, servir requer coragem. Liderar depende das habilidades que se consegue obter, mas servir depende daquilo que uma pessoa realmente é. A liderança servidora não é apenas uma boa forma de se liderar. Líderes servos não são passivos, eles são ativos. Eles se envolvem com seus liderados, ajudando-os a crescer. No entanto, o envolvimento não é apenas intelectual, mas de coração a coração. Líderes são servos e eficazes quando as pessoas que lideram se tornam melhores por sua causa, e não quando conseguem subjugá-las para que os sirvam e alcancem melhores resultados. A formação de um líder servo parece não ser completa apenas com a assimilação de alguns conceitos.

 É necessário um processo. A primeira parte desse processo implica em fazer o líder desaprender parte do que sabe sobre liderança, especialmente o que contraria a essência do que significa ser servo. A segunda parte do processo implica em padecer as dores de tornar-se servo, assimilando valores que influirão no “ser” do líder. Quando o líder capacita seus liderados, esta é uma forma de servi-lós. “Bem como o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate de muitos”; (Mt 20.28). O líder que deseja servir pode prover esperança e ser um exemplo para aqueles que desejam direção e propósitos em suas vidas. A tendência do ser humano é cuidar apenas de si mesmo, mas precisamos fazer alguma coisa para ajudar as outras pessoas ao nosso redor. A Palavra de Deus está repleta de orientações neste sentido. Devemos fazer o bem a todos, mas existe maior mérito em ajudar aqueles que não podem retribuir. Faça algo por alguém sem que a pessoa saiba que foi você. Enfim, façamos para Deus e não com o propósito de sermos reconhecidos pelos homens. O princípio que Jesus viveu é que, quando um líder se torna servo, irá ampliar o alcance da sua influência na liderança. O serviço funciona como um respaldo à autoridade. Na proporção em que um líder serve aos seus liderados, ele reforça sua autoridade para conduzi-los na direção dos objetivos que precisam ser atingidos. Na proporção em que o líder apenas manda nos seus liderados ele os força a seguí-lo por causa da sua posição. Servir é fruto da visão de vida. Servir é fruto de um conjunto de valores que os líderes cultivam e praticam. Servir é uma atitude e não a inclusão de alguns itens na agenda, que demonstrem uma aparência, somente uma posição do líder entre os seus liderados. Acusar e criticar são atitudes bem mais fáceis do que servir. É muito fácil dizer: “Seus pés estão sujos”, mas abaixar-se para lavá-los não é tão simples

No mundo contemporâneo, o termo servo tem uma conotação de inferioridade. Mas, não o era assim no ensino de Jesus. Na verdade, Jesus magnificou o termo, igualando-o à grandeza. E isto, certamente, foi um conceito revolucionário. Um líder não é apenas alguém que detém o poder para conduzir um grupo de pessoas a alcançar um objetivo. Jesus trabalhou um conceito de poder diferenciado com os Seus discípulos. Jesus logo quando os chamou para iniciarem as suas missões, afirmou que lhes daria poder para serem efetivos. “E, quando o Senhor veio a saber que os fariseus tinham ouvido que Jesus fazia e batizava mais discípulos do que João (ainda que Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos)”; (Jo 4.1,2). Jesus delegava autoridade, ele repassava funções e ofícios, Jesus formava líderes. Os discípulos precisavam entender e aprender a viver um para o outro em um bem comum. Eles precisavam ter esta experiência, pois eles até discutiam quem seria o maior. Jesus como sempre foi o exemplo. Nada de querer ser melhor ou mais importante. O mais importante é quem ama, quem ajuda ao próximo, quem é eficiente, caridoso, bondoso, amigo. É natural que sirvamos aos nossos superiores, mas Jesus serviu aos seus subordinados. Quando servimos aos nossos irmãos, declaramos que os consideramos superiores a nós. Pode ser fácil servir àqueles que nos amam, mas Jesus lavou também os pés de Judas Iscariotes. Cristo ultrapassou os limites da razoabilidade humana, demonstrando amor, mansidão e misericórdia.

Graça & Paz.

Rev. Dr. Carlos Andrade, Th.D.