Arrependeu-se Deus de haver feito o homem?

15 de dezembro de 2014

Arrependeu-se Deus de haver feito o homem?


     “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o Senhor: Destruirei, de sobre a face da terra, o homem que criei, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito”; (Gn 6.5-7). 

    Normalmente, quando é que uma pessoa se arrepende de ter feito alguma coisa? Quando ela comete um erro não é mesmo. É comum alguém dizer: “Fiz algo errado e me arrependo disso”. Isso acontece por que, normalmente, alguém se arrepende do erro cometido. Porque o erro gera consequências desagradáveis. Assim, o arrependimento humano ocorre na maioria das vezes por causa de uma falha cometida (um erro, ou um pecado) e que gera consequências ruins, pelas quais nos sentimos “arrependidos”. Também é comum escutarmos pessoas dizendo: “Não me arrependo de ter feito tal coisa, mas não gostaria de ter que passar pelas consequências novamente”. Essa situação é pior ainda, por que a pessoa não reconheceu que errou, e nem se sente triste por ter cometido o erro, mas apenas lamenta ter que passar pelas consequências do seu erro. O arrependimento de Deus é diferente do arrependimento do homem. Deus não erra! Um dos seus atributos é a Onisciência. Se Ele não erra, então Ele não Se arrepende da forma como nós humanos nos arrependemos! 

     Observe cuidadosamente como a Bíblia utiliza o vocábulo arrependimento referindo-se a Deus. Explicarei de uma forma concreta esta questão. “Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa. Porventura, diria ele e não o faria? Ou falaria e não o confirmaria? Eis que recebi mandado de abençoar; pois ele tem abençoado, e eu não posso revogar”; (Nm 23.19,20).  Essas palavras foram ditas pelo profeta Balaão, e registradas por Moisés. No contexto geral desta passagem. Deus havia abençoado ao povo de Israel e que Ele não iria “mudar de idéia”. Nada nem ninguém poderia fazer Deus mudar o Seu plano de abençoar ao Seu povo. Nesse sentido, Deus não se arrepende. Ele não muda a Sua Palavra. Quando Deus abençoa, está abençoado, Ele não muda. Pode acontecer de o homem mudar e colocar-se numa posição de ser impedido de receber as benções de Deus. Mas, Deus não muda o Seu propósito de abençoar ao homem, Ele é imutável. Você tem a benção de Deus. Observe, perceba que existe uma comparação de Deus com o homem. Aqui está o entendimento! “Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa”. Deus não é homem para que se arrependa como um homem. Deus não tem nenhum “erro” do qual tenha de se arrepender. Ao lermos passagens bíblicas que nos informam que Deus Se arrependeu. Precisamos entender que o arrependimento divino é totalmente diferente do arrependimento humano. Quando a Bíblia fala do arrependimento do homem, usa os seguintes vocábulos no original: Shubh (hb) e metanoéo (gr). Os seus significados são: mudança de mente (não somente a tristeza pelo pecado), voltar atrás, retornar ao caminho correto. Quando a Bíblia se refere acerca do arrependimento de Deus, são utilizados os vocábulos: Naham (hb) e Metamélomai (gr). Os quais significam: sentir dor, sentir tristeza e pesar. O arrependimento de Deus não traz mudança em seu Ser, mas no seu modo de “tratar” para com o homem. O arrependimento de Deus mencionado na Bíblia é no sentido de “mudar de atitude” ou de “estar triste”.  Em diversas circunstâncias, quando o povo mudou de atitude e de procedimento, abandonando os seus pecados. Deus “mudou de atitude”, isto é, revogou a sentença outrora proferida. 

     “Então, o Senhor arrependeu-se do mal que dissera que havia de fazer ao seu povo”; (Êx 32.14). “Estendendo, pois, o Anjo a sua mão sobre Jerusalém, para a destruir, o Senhor se arrependeu daquele mal; e disse ao Anjo que fazia a destruição entre o povo: Basta, agora retira a tua mão. E o Anjo do Senhor estava junto à eira de Araúna, o jebuseu”; (2 Sm 24.16). “E Deus viu as obras deles, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria, e não o fez”; (Jn 3.10).  “E orou ao Senhor, e disse: Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus piedoso e misericordioso, longânimo e grande em benignidade e que te arrependes do mal”; (Jn 4.2).  Na situação em que se encontrava a cidade de Nínive, Deus “Se arrependeu” e não os destruiu como disse que faria. Neste caso o “arrependimento de Deus” significa que Ele ficou satisfeito pelo fato dos cidadãos da cidade de Nínive, terem se convertido de seus maus caminhos. Apresentando o “arrependimento de Deus” como uma mudança no modo Dele tratar com o homem, consequente da mudança do homem em relação a Ele e os Seus propósitos. “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração. E disse o Senhor: Destruirei, de sobre a face da terra, o homem que criei, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito”; (Gn 6.5-7). 

     Deus se arrependeu no sentido de ter ficado “triste” com o que os homens fizeram com a liberdade que lhes foi concedida. Deus “se arrependeu” de haver feito o homem, está afirmando que o Senhor “sentiu profunda dor” por ter de executar juízo contra o homem. Deus é amor, mas em Seu amor também existe a Sua justiça! Deus quer que os ímpios se convertam dos seus maus caminhos e vivam eternamente com Ele. “Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor Jeová; não desejo, antes que se converta dos seus caminhos, e viva?”; (Ez 18.23). Quando Deus percebeu até que ponto a maldade do homem, a maldade humana havia crescido nos dias de Noé, Deus “ficou triste”.  Deus já havia , já tinha tentado de tudo para chamar aquele povo ímpio de volta para Ele. Deus retira o Seu Espírito da terra. Não havia mais solução. Deus percebeu, Ele viu que todos os habitantes da terra, exceto a família de Noé, precisariam ser destruídos, condenados à morte eterna. E não este o propósito que Deus havia formado, criado o homem. Isso trouxe profunda “tristeza” a Deus. Deus se arrependeu de ter criado o homem. Isso foi no geral?  Não! Havia uma única exceção, existia um homem na terra, um justo no meio de todo aquele caos! “Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor”; (Gn 6.8). Deus ficou triste pelo fato daquela geração o haver rejeitado completamente, a ponto de terem de ser destruídos. “Depois, disse o Senhor a Noé: Entra tu e toda a tua casa na arca, porque te hei visto justo diante de mim nesta geração”; (Gn 7.1). Deus ficou triste por ter de punir a maldade humana que havia alcançado proporções enormes. Este é o arrependimento de Deus. Ele nunca erra, Ele não pode errar, mas se o homem erra insistentemente ao ponto de se perder eternamente. Deus, que não tem prazer na morte de ninguém, “fica triste” pelo fim que o homem que não o obedece, terá que sofrer. A esse sentimento de tristeza, dor e de perda, a Bíblia chama de “arrependimento de Deus”. O arrependimento de Deus está intimamente ligado ao Seu amor e a Sua justiça. “Mas, se o ímpio se converter de todos os pecados que cometeu, e guardar todos os meus estatutos, e fizer juízo e justiça, certamente viverá; não morrerá. De todas as sua transgressões que cometeu não haverá lembrança contra ele; pela sua justiça que praticou viverá”; (Ez 18.21,22). 

Graça & Paz. 

Rev. Dr. Carlos Andrade, Th.D.