Entendeis o que vos tenho feito?

1 de junho de 2016

Entendeis o que vos tenho feito?


     “Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas, e que havia saído de Deus, e que ia para Deus, levantou-se da ceia, tirou as vestes, e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois, pôs água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido”; (Jo 13.3-5). 

     Jesus estava para realizar a última Ceia do Senhor na terra com os seus discípulos. Ou seja com a Sua Igreja. A Bíblia se refere a essa comunhão como Ceia do Senhor. Mas, atualmente pela maioria das Igrejas cristãs, o termo mais conhecido e utilizado é Santa Ceia. O que Jesus sabia até esse momento? (1º) Jesus sabia que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas. (2º) Jesus sabia que havia saído de Deus. (3º) Jesus sabia que Ele ia para Deus, retornaria a Sua origem. O reconhecimento e a identificação do senhorio de Jesus em relação aos seus discípulos é algo contundente, marcante, determinante, poderoso e profundo! O que fez Jesus após esta reflexão? “Levantou-se da ceia, tirou as vestes (incluindo o seu manto), e, tomando uma toalha, cingiu-se (pôr ou usar ao redor de uma parte do corpo; envolver-se, cobrir-se)”; (Jo 13.4). Jesus tirou as vestes, referência ao seu manto que é a vestimenta principal. Ficando somente com a túnica, a vestimenta secundária, e cingiu-se com uma toalha ao redor de seu corpo. Ele despiu-se do manto (tipo de sua natureza divina) e cingiu-se de uma “toalha” sobre a “túnica” (tipos de sua humanidade temporal). Afinal, nada é mais temporário do que uma toalha sobre o corpo. O que é algo ou alguma coisa temporária? É algo que dura apenas um certo tempo; algo provisório, não definitivo, dura pouco. Entre o manto e a toalha nós percebemos e entendemos a distância entre o eterno e o temporário. Entre o Kairós de Deus e o Chronos do homem, entre a dimensão de Deus e a dimensão dos homens. A partir do momento que Jesus cingiu-se com a toalha. 

     A partir do momento que Jesus cingiu-se com a toalha. Ele mostrou aos discípulos que eles como homens poderiam fazer, realizar coisas grandiosas como Ele. Sem retirar o manto eles nunca poderiam cingir-se com toalha e recolocar o manto da Justiça, pois a toalha também representa a manifestação única de purificação e de santidade ao corpo. Jesus é divino, santo e puro. Ele não precisava retirar o seu manto e cingir-se de uma toalha para lavar e enxugar os pés dos discípulos.“Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas”; (Jo 13.3). Denota confiabilidade, no momento em que Jesus cingiu-se com uma toalha, Ele como Senhor desceu ao nível dos seus discípulos lavando-lhes os pés. Ele repassou e depositou confiança naqueles pés que iam dar continuidade a sua Obra. Entendemos melhor esta questão quando lemos uma outra passagem. Perceberemos que esta verdade nós atinge hoje aqui e agora. “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade. Eu não rogo somente por estes, mas também por aqueles que, pela sua palavra hão de crer em mim”; (Jo 17.18-20). A toalha cingida ao “redor” da túnica “também” representava o seu ministério como homem, o qual estava próximo de terminar. Os fariseus, os escribas e os saduceus exigiam que os seus discípulos lavassem as mãos. Mas Jesus lavou os pés dos seus discípulos, e depois os enxugou com a toalha. Os nossos pés se sujam na caminhada natural dessa vida humana. Os pés são como a língua, pois são sujos pela caminhada da vida. Os pés são o símbolo externo da nossa personalidade, caráter e temperamento humano. Após estarmos com os nossos pés limpos podemos nos calçar da Palavra.“E calçados os pés na preparação do evangelho da paz”; (Ef 6.15). "Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa”; (Jo 13.12a). 

Jesus lavou os pés dos seus discípulos fora do Lugar Santíssimo. Jesus retirou a toalha cingida de sobre a sua túnica e recolocou as suas vestes principais, recolocou o seu manto. A túnica era o tipo do véu da divisão que havia no templo, entre o Lugar Santíssimo e o Lugar Santo. Somente o Pai poderia rasgar o véu do templo de cima para baixo. Jesus era a personificação do próprio templo. Tudo que havia no templo apontava para a sua tabernaculização. “Tendo, pois, os soldados crucificado a Jesus, tomaram as suas vestes e fizeram quatro partes, para cada soldado uma parte; e também a túnica. A túnica, porém, tecida toda de alto a baixo, não tinha costura. Disseram, pois, uns aos outros: Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para ver de quem será. Isso foi assim para que se cumprisse a Escritura, que diz: Dividiram entre si as minhas vestes, e sobre a minha túnica lançaram sortes. Os soldados, pois, fizeram estas coisas”; (Jo 19.23,24). Sendo o planeta redondo, o termo bíblico conhecido como “os 4 cantos da terra” na realidade é uma referência aos 4 pontos cardeais: Norte, Leste, Sul, Oeste. Os quais são representados na divisão das quatro partes do “manto” (tipo de sua Divindade) que foi levado pelos soldados representantes legais do Império Romano (tipo do templo sem a glória). Sua Alma foi ao Hades e o Espírito foi entregue ao Pai no momento da morte do corpo, tanto a Alma como o Espírito de Jesus não estavam mais presentes na dimensão dos homens. A túnica (tipo da humanidade) não a dividiram, pois estava bem costurada. O corpo já havia sido crucificado, aguardava somente o retorno da Alma para a ressurreição, para receber a imortalidade e depois a glorificação. Era o véu do seu templo que separava Deus do homem. O Reino representado pelo corpo de Cristo é indivisível, não há emenda, não tem retalhos, é uma costura única. A túnica era costurada de alto a baixo, ela era como o véu do templo, somente o Pai podia rasgá-lo de alto a baixo. O Pai rasga o véu do templo de alto a baixo no momento em que o corpo de Jesus morre na Cruz. Jesus não usaria mais aquelas vestes, Ele nunca mais vestiria o manto e a túnica de seu ministério terreno. A sua vestimenta original de glória que estava com o Pai foi recolocada em seu corpo glorificado.“Disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito?”; (Jo 13.12b). O ato, a ação, a atitude de lavar os pés uns dos outros demonstra e denota que todos se amam, se ajudam, se cobrem, se disciplinam, se exortam, se consolam e se edificam em amor. O exemplo ensina. Despir-se de seu manto e cingir-se de uma toalha denota humildade. Que todos nós participantes da Igreja “Corpo místico de Cristo” entendamos, saibamos que a Ceia do Senhor, a mesa da comunhão é um ato divino e não uma liturgia de um culto religioso.  

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Graça & Paz.

Rev. Dr. Carlos Andrade, Th.D.